Teu corpo é música.

Persigo o traço do teu corpo, como escultor que na ponta dos dedos molda as curvas que te desenham. Deslizo as mãos pela cintura, aliso-te o ventre, resvalando pela tua pele de seda. Escolho os tons numa paleta de mil cores, onde te pinto, lábios avermelhados, pele clara, cabelos escuros e longos como braços de mar. De olhos fechados sei de cor cada caminho teu, cada detalhe do teu desenho.

Pego teu corpo como viola que dedilho pela noite fora, num som perene que pelo ar se estende. Teus cabelos são cordas que emanam essências, notas de uma música que inventamos em cada toque. Teu ventre lugar de repouso, onde a palma da minha mão se deita. Teus olhos a luz que ofusca meus sentidos, que na penumbra escutam tua voz, como esta música que em ti faço tocar.

Pela noite fora, somos instrumento e músico, toques de prazer em soltamos em suaves murmúrios. Tu a inspiração que minha alma alimenta, eu tua vibração , que em contida tormenta, teu âmago agita. Onda de mar perdida, que no meu corpo desmaias. Não vás, não saias, fica aqui em mim abraçada, deixa que meus dedos dedilhem tua alma.

Música para este texto.

Como um rio

Sigo na margem do rio, que flui em longos deslizes de água fresca, sigo o ritmo da correnteza em caminhar sereno pela vereda. Vejo os peixes saltarem, querendo voltar rio acima. Vejo as árvores passarem no ritmo deste caminho que sobre meus pés desfila. Na garganta da rocha afiada, vejo o tumulto das tuas águas, que se elevam e agitam, que fervilham de vida. Vejo os pássaros que em voos picados tentam colher do rio o seu sustento.

Paro para molhar minhas mãos, em teu corpo fluido, em teu pedaço de mar. Deixo a corrente passar, como carícia que por meus braços desliza. Sinto a força do teu querer, como se quisesses meu corpo ser. Sinto a transparência do teu olhar que no meu vem adormecer. Contornas-me o corpo imerso, segues por todos os meus poros, preenches todos meus detalhes e lavas todas as minhas penas, antes de seguires o teu curso.

Mergulho em ti, como peixe que contra corrente quer chegar à nascente, onde a água é mais dormente, mais cálido o teu abraço, mais suave o teu querer. Nado, com a força do meu espírito, como pássaro que em perfeito equilíbrio paira sobre o teu corpo de rio, fluido. tomas-me e levas-me, embalado na tua força, como folha de árvore amarelecida. Levas-me na tua vida, para o estuário, onde em branco sudário nas areias me depositas.

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Fluir

Nasço nas entranhas de teu corpo, como riacho que por entre rochas se desprende. Abraço pedras, contorno sulcos escorregando por ti. Recebo outros fluidos que a mim se juntam fazendo-me rio, que entre margens se comprime, se agita em desfiladeiros de prazer. Em represas me prendes, com teus braços me seguras, fazes-me lago que teu corpo inunda. Em cascatas me precipito, num salto sobre teus abismos, polindo, esculpindo teu corpo no meu atrito.

Em teu mar derramo minhas águas, que adormecem depois das loucas correntes, dos caminhos percorridos. Adormeço embalado nas correntes quentes, que aos poucos me levam em direcção ao vasto oceano. Lugar profundo, onde meus dedos nada mais são que pequenas ondas que na areia de tua praia acariciam teu corpo molhado. Beijo teus pés que caminham na margem desse lugar paradisíaco onde meu corpo roça o teu, cobrindo-o e abraçando-o quando em mim mergulhas.

Quando o Sol se vem deitar, sobre as ondas de teu mar, sinto o calor do teu corpo, em meu aportar. Como barco em mim deslizas. És sereia que me toma com teus suave cantar, és beijo em água de mar. E quando a noite vem, em mim reflectes o teu luar.

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Noites de cetim

No cetim branco, os corpos rendem-se aos desejos da noite. Envoltos na penumbra da madrugada, escutam-se os gemidos do prazer, respirações ofegantes de luxúria. Gotas de maresia salgada resvalam pelos corpos, salpicados por fragrâncias de paixão. A música marca os ritmos oscilantes, que seguem os caminhos das velas acesas. As línguas enlaçam-se como fitas que decoram os lábios. As mãos escorrem pelas ancas inflamadas pelo fogo da loucura. Os dedos riscam a pele em suaves traços de vontade.

Suspendem-se as respirações, e as vibrações agitam a pele que num arrepio se eriça de prazer. Um último gemido entoa o espaço, faz-se silêncio, fica o abraço, e os corpos, em cetim, molhados. Rasga o dia a noite, numa alvorada silenciosa, e depois do prazer, deixamos a água correr, num banho morno, que lava o corpo, que inunda o espírito. As boca húmidas procuram-se num beijo encharcado de fantasias. As línguas macias, escorrem pela pele como espuma. De novo se ilumina o olhar, que neste Sol vem despertar, as chamas eternas do prazer, descobrem-se na incandescência de cada ser.

Exaustos, deixamos partir os últimos resquícios duma noite, que entre cetim branco, corpos embalou, na loucura do prazer a que ambos nos entregámos. O orvalho salpica as rosas que no outro lado da janela, pintam de cor o verde do jardim. Os pássaros voam em rodopios anunciando mais uma manhã de Primavera. Enrolados nas toalhas ainda molhadas, dois corpos dormem abraçados sobre a cama.

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Valsa

Deslizo as cores na tela despida, como dedos que se arrastam, marcas indeléveis da tua pele. Escuto o som das fibras que cedem passagem ao carvão, que, como mãos em teu corpo, se deposita na imaculada brancura duma folha de papel. Sinto os sulcos dos entrançados que seguram as tintas, como suaves curvas da tua pele. Falo, ao silêncio desta noite, que as velas iluminam num constante agitar de sombras.

De olhos fechados, percebo, cada detalhe de ti, que em meu corpo se veste de sentidos. E dos perfumes que exalam a ternura do teu ser, construo-te com a dança de meus dedos sobre esta tela branca. Na densidade deste vazio, sopro brisas de ventos frios, e condenso na vidraça da janela uma recordação de teu rosto. Nestas lembranças, em mágicas formas preencho, construo tudo o que sinto, percepção daquilo que és, e em meus braços te tomo, como obra terminada de um mestre desconhecido.

Quando teu corpo chega, já tua alma te espera, recostada em meus braços, onde cansada te vens aninhar. Esta fusão, entre o físico e o espírito, é magia de alquimista que em sonhos te cria. Abres os olhos, e no esplendor do seu brilho, faz-me acreditar que para lá daquilo que vejo, há um mundo de sentidos que só nos dois entendemos. E ali ficamos, amando-nos no silêncio de uma valsa, à espera duma nova alvorada.

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Ilumina-me

Abro os olhos em plena escuridão, pressinto o perfume do teu corpo, que deitado a meu lado exala fragrâncias de jasmim. Nesta noite escura, o calor da tua pele dissipa-se sobre a minha, despida. Neste silêncio, a madrugada é apenas um respirar tranquilo, e a luz, uma ilusão que nas pálpebras fechadas se projecta em mil brilhos de estrelas imaginadas. Teus cabelos, soltos na almofada, são pedaços de vento que carregam as essências de vidas passadas, suaves fios de seda que meu rosto vêm tocar.

Sentes meus dedos tocar teu rosto, como asas de anjos que afagam a tua tez, dos teus olhos raios de luz projectam-se como um pôr-do-sol na direcção do meu olhar. Sou espectador da tua luz, desse farol que a teu porto me conduz, e nas velas desta brisa, sou barco à deriva. Viagem plena que em momento de espera, meu corpo alucina. Teu lábios em meus terminam, num beijo de silêncios. Os braços nos corpos se envolvem e num abraço teus olhos cerras devolvendo o quarto à penumbra da madrugada.

Ilumina-me, de novo, em cada madrugada, oferece-me a luz do teu olhar, em cada despertar. Dá-me rumo, e deixa-me fluir em teu corpo, nesse instante gostoso que nos teus lábios termina, como luz em fim de dia, pôr o Sol no teu olhar, sentir tua pele e teu corpo abraçar.

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Voo

Seguro-te na palma das minha mão, como jóia preciosa, sustento tua alma, como pena delicada que das asas de um anjo se soltou. Hoje protejo teu corpo, que em meu adormeceu. Seguro teu ser na ponta de meus sentidos, no prazer por ambos dividido. Sou o teu vento, brisa alada, véu que teu corpo vai envolvendo, em suaves fios de seda. E minha voz, presença constante em teu pensamento, é voo de pássaro que se precipita em voo rasante, tocando com minhas asas tua pele despida.

Despertas, e teu olhar é vento suave sobre minha pele, momento em que nossos corpos abraçados acordam as libidos, gemidos de doçura que em carícias são ternura que nossas mãos desenham. Percebo tua língua em mim resvalar, como rio que segue em direcção do mar. Sentes o arrepio em teu corpo, quando meus dedos por ti percorro. E nossos corpos giram, em suaves voltas sobre a cama, lugar de paixões perdidas, prazeres e desejos por sentir, ainda.

Soltamos os espíritos, que pairam sobre os nós, deixamos a magia conduzir-nos e seguimos em direcção ao nosso horizonte perdido. Lugar escondido, entre trevas e luz, mistérios que este mundo nos induz. Somos o reflexo da nossa intensa paixão, não somos apenas corpos, somos pura emoção. Brilho que em energias difusas se conduz, por caminhos esquecido no tempo. Passado, e futuro nos olhos desta imaginação, fantasia, ilusão.

Chegamos neste lugar tão procurado, por todos os amados, onde sabemos que reside a fonte de todos os sentires, luz de um amor que está porvir.

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