Útero

Hoje passaste por mim e não me viste, o teu olhar procurava no horizonte a distância que não conseguia encontrar na proximidade da minha alma. Seguiste em passos largos, rumo ao futuro, esquecendo-te de mim aqui, sentado no rebordo do teu leito. Esqueceste o perfume de minhas palavras, o gosto que trazias na boca quando as amavas. Passate e nem reparaste que estava contigo, sentado sobre teu ombro, esquecido.

Hoje foste recordação, abraço que em mim dou, saudade que se eterniza no momento. Hoje foste passado tão presente, ainda, dor, tangente, que em meu corpo se afinca, como espada inimiga. Seguro esta lança que em pleno peito se adentra, para que sangue não jorre, para que cale o lamento. Sou efectivamente um castelo de letras, que ao mais leve silêncio se desmorona, sou cristal, que ao mais pequeno toque se estilhaça.

Já havia aceitado a sorte, de ser apenas letra, ausência e morte. Mas na luz da aurora sempre a beleza nos encanta, esquecemos que somos apenas alimento para que precisa, não podemos, não devemos viver dos próprios sonhos, pois estes são nosso próprio veneno. Mesmo de rimas descompassadas, regresso ao útero, lugar solitário onde escrevo, onde sou apenas o sonho que outros hão de ter .

6 comentários:

lia disse...

Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré...
muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia...
foi o vento que virou?
foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
sei lá.
fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
é por isso, meus amigos,
que a tempestade da vida
me apanhou no alto mar.
e agora
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
se for ao fundo acabou-se.
estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.
Manuel da Fonseca

... e às vezes as tempestades são vagas que se erguem no peito e não nos deixam ver que para além das ondas, lá no fim, quando rebentam, espraiando espumas em praias, está um coração aflito que nos espera, não nos vê, mas está lá. Tão perto, tão presente, mas do lado de lá da muralha de vagas que o coração aflito em tempestade agita.

BLOEM disse...

Estou longe querido poeta...perdoa a minha ausencia. Um dia volto.

sereia encantada disse...

Espero sinceramente que um dia te permitas viver maior felicidade do que a que encontras a fazer sonhar...

Sonia Schmorantz disse...

Sonhos e letras são reais quando ganham vida no papel...
Um belo e perfeito texto!
abraço e bom final de semana.

Sereia Azul* disse...

Há sonhos que são letras, sim... mas há sonhos que ultrapassam o entendível. Nem o dicionário dos enigmas consegue decifrar o significado que as letras vestem na sua essência.

Regressas ao ùtero na esperança de renasceres para mais outro sonho... quiçá o mesmo!

Layara disse...

Não és tão somente letras
Mas Letras com muitos sentimentos.


Um Beijo Lilás!